Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
A propósito do texto, seguem as afirmativas:
I. O eu-lírico nega e confirma seu amor, pondo em dúvida esse sentimento.
II. O poema apresenta como característica do Simbolismo a musicalidade nos versos.
III. Confirmação e negação do amor alternam-se nos trechos ...” procuro teu olhar “ e “... nunca pensei num lar onde fosses feliz, e eu feliz contigo.”
IV. O título confirma a declaração de um sentimento sobre o qual o eu-lírico não tem dúvidas.
É correto o que se afirma apenas em:
Leia o poema a seguir.
As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
(Carlos Drummond de Andrade)Carlos Drummond de Andrade é considerado o mais influente poeta brasileiro do século XX. Como escritor modernista, segue a libertação proposta por Oswald de Andrade, com a instituição do verso livre. Se dividirmos o Modernismo em uma corrente mais lírica e subjetiva e em outra mais objetiva e concreta, Drummond faria parte da segunda, ao lado do próprio Oswald de Andrade. Levando em consideração o período literário do qual Drummond faz parte e a compreensão do poema, analise as assertivas a seguir.
I – Na primeira estrofe, o eu lírico diz que o amor não tem uma razão de acontecer, que não é preciso entendê-lo para amar, não é preciso ser correto para sentir. O poema mostra uma característica do autor, que é o fazer poético como uma reflexão.
II – A segunda estrofe expõe que, para se amar, não é preciso querer nada em troca, o amor vem do nada e surge como uma brisa suave, que nos envolve até que estejamos totalmente rendidos. Quanto ao aspecto formal, o Modernismo é marcado pelo soneto, com versos decassílabos, rima optativa e tradição da poesia épica.
III – Na terceira estrofe, o eu lírico não conceitua o amor, simplesmente diz que no amor não há porquês, não há razões, regras a serem seguidas, basta que ele complete a pessoa que ama e que é amada. Pode-se afirmar que é um poema lírico e religioso, marcado pelo conflito entre o pecado e o perdão.
IV – Na quarta estrofe, o poeta compara o amor com a morte, pois o amor contribui para nosso crescimento ou para nossa poda. O poema apresenta objetividade temática e culto à forma.
É correto o que se afirma apenas em
Irene no Céu
Manuel BandeiraIrene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro bonachão:
- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
Em relação ao poema de Manuel Bandeira, considere as afirmações abaixo:
I – A estrutura do poema é formada por três estrofes com sete versos irregulares.
II – O poema apresenta três personagens: narrador, Irene e São Pedro.
III – O foco narrativo está na terceira pessoa com o narrador observador.
IV – O uso de travessão indica uma narrativa no poema.
V – A linguagem utilizada está na norma padrão da Língua portuguesa.
É correto apenas o que se afirma em:
Poema tirado de uma Notícia de Jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e
morava no morro da babilônia num barracão
sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de
Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e
morreu afogado.
BANDEIRA, Manuel. Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974.Pelo exposto no texto, avalie as afirmações a seguir:
I. É um poema modernista que faz uma análise crítica da realidade brasileira.
II. Utiliza uma linguagem coloquial, sucinta, que restringe os fatos.
III. Sua estruturação é muito próxima à da prosa, o que nos sugere modernamente um “poema em prosa”.
IV. O autor quer somente retratar a morte na favela.
V. O nome da personagem do poema referese a uma pessoa comum, do povo, indica a condição social do sujeito.
É correto apenas o que se afirma em:
Leia o poema “Sociedade”, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro “Alguma poesia”, em 1930, para responder à questão seguinte.
Sociedade.
O homem disse para o amigo:
— Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
— Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.
No caminho o homem resmunga:
— Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: — Que idiota.
— A casa é um ninho de pulgas.
— Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
Nesse poema, o poeta Carlos Drummond de Andrade
I. retoma os ideais parnasianos do fazer poético.
II. valoriza a linguagem contida e o verso livre.
III. sublima a capacidade humana de interagir.
IV. tematiza as relações humanas do cotidiano.
É CORRETO apenas o que se afirma em
Este poema é de Ferreira Gullar, publicado em Antologia Poética. Leia-o para responder à questão.
Não há vagas
O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão.
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em seus arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras.
— porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço.
O poema, senhores,
não fede nem cheira.
O poema Não há vagas, de Ferreira Gullar, enquadra-se no movimento neoconcretista brasileiro, porque o poeta
I. enfatiza a forma em detrimento do conteúdo.
II. idealiza o fazer literário numa perspectiva realista.
III. atrela a criação literária a um projeto de engajamento social.
IV. insere, no processo de criação literária, a expressividade e a subjetividade.
É CORRETO apenas o que se afirma em
Texto
Maniçoba, 19 de junho de 1911. Minha mãe: Aqui cheguei em paz e livramento, graças a Nosso Senhor Jesus Cristo. Isto aqui é bom como o diabo; acorda-se às cinco da manhã, leva-se o dia lendo, fumando, comendo e rezando; dorme-se às nove horas da noite. Uma vida de anjo. Quando chegar aí – está compreendendo? – hei de ter o corpo pesando 70 quilos e a alma leve de pecados, tão leve como vagons que levam material para a construção da estrada de ferro de Palmeira
Graciliano Ramos DISCINI. Comunicação nos Textos. São Paulo: Contexto, 2005, p.180.Analise as seguintes afirmações:
I – O emprego do itálico, na primeira linha, sugere que a expressão “paz e livramento” é um neologismo.
II – Na expressão “Isto aqui é bom como o diabo”, encontra-se uma comparação paradoxal.
III –No trecho “Em uma vida de anjo”, identifica-se uma ironia.
IV – Em “e a alma leve de pecados, tão leve como vagons...” encontra-se uma metonímia.
É correto apenas o que se afirma em
É correto afirmar, em relação à poesia do segundo momento modernista brasileiro, que
É correto afirmar sobre o Trovadorismo que
Leia o trecho do romance Vidas secas, de Graciliano Ramos.
Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.
Arrastaram-se para lá, devagar, sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
– Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.
Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
– Anda, excomungado.
(Vidas secas, 2001.)É correto afirmar sobre o cenário e sobre os personagens de Vidas secas: