A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregála bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
— Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferenciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.
Graciliano Ramos, Vidas Secas.Considere as seguintes afirmações sobre as características da prosa de Graciliano Ramos. I. “Tudo nele se concentra no que é homem, no que é a tragédia do ser humano.” (José Lins do Rego) II. “Representa o regionalismo baiano da zona rural do cacau e da zona urbana de Salvador.” (José de Nicola) III. “Seus personagens são seres oprimidos, moldados pelo meio.” (Ulisses Infante) Assinale a alternativa correta.
Catar Feijão
1
Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
2
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.
João Cabral de Melo Neto, A educação pela pedra.Considere as seguintes afirmações relativas ao poema de Cabral de Melo: I O ideal de economia verbal, preconizado no poema, assemelha-se ao ideal estilístico do Graciliano Ramos de Vidas secas, também este sequioso de restringir-se ao essencial. II O recurso ao “grão imastigável, de quebrar dente” e à “pedra [que] dá à frase seu grão mais vivo”, com o sentido que lhe dá Cabral de Melo, encontra-se presente no próprio poema que a reivindica. III A ideia de se produzir uma obstrução da leitura como algo positivo participa do objetivo de se romper com os autoritarismos da percepção – desígnio frequente na literatura moderna, inclusive em autores estilisticamente muito diferentes de Cabral, como é o caso de Guimarães Rosa. Está correto o que se afirma em
Considere as alternativas a seguir sobre o Arcadismo e assinale a INCORRETA.
Considere as afirmativas a seguir sobre os gêneros literários e assinale a INCORRETA.
Leia o poema para responder à questão.
(im) ponderável
O silêncio, dizem, é nada.
Contudo, na minha
balança de precisão,
teu silêncio esmaga.
Osmar Casagrande. A casa: (in) cômodos (di) versos.Considere as afirmações abaixo: I. O poema é uma quadra e apresenta uma rima perfeita. II. O título do poema remete, no texto, à relatividade do sentido do silêncio. III. Há cavalgamento ou enjambement do segundo para o terceiro versos. IV. No título do poema e no título do livro, os parênteses reforçam apenas a ideia de oposição de sentidos. Com base nas assertivas, marque a alternativa CORRETA:
[1] Passaram-se semanas. Jerônimo tomava agora, todas as manhãs, uma xícara de café bem
[2] grosso, à moda da Ritinha, e tragava dois dedos de parati “pra cortar a friagem”.
[3] Uma transformação, lenta e profunda, operava-se nele, dia a dia, hora a hora,
[4] reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num trabalho misterioso e surdo de crisálida. A
[5] sua energia afrouxava lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a
[6] natureza do Brasil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e sedutores que o comoviam;
[7] esquecia-se dos seus primitivos sonhos de ambição, para idealizar felicidades novas, picantes e
[8] violentas; tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de guardar; adquiria
[9] desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se preguiçoso resignando-se, vencido, às
[10] imposições do sol e do calor, muralha de fogo com que o espírito eternamente revoltado do último
[11] tamoio entrincheirou a pátria contra os conquistadores aventureiros.
AZEVEDO, Aluísio de. O Cortiço. p. 79. São Paulo: Moderna, 2004.Considere as afirmações abaixo sobre a estrutura sintática do trecho retirado de O cortiço. I. Todas as ocorrências do pronome lhe (duas na linha 4 e uma na linha 6) têm o mesmo valor sintático. II. É possível excluir a partícula se (l. 7), em esquecia-se, sem alterar o sentido do contexto em que aparece e sem provocar incorreção gramatical. III. O acento indicativo de crase é opcional nas expressões dia a dia e hora a hora (l. 3). IV. A oração para idealizar felicidades novas, picantes e violentas (l. 7 - 8) mantém uma relação de finalidade com sua oração principal. V. Se a preposição com (l. 10) for omitida, haverá alteração semântica no contexto em que ela aparece. Quais estão corretas?
Considere a seguinte afirmação: Ambas as obrascriticam a sociedade, mas apenas a segunda milita pela subversão da hierarquia social nela representada. Observada a sequência, essa afirmação aplica-se a
TEXTO
Tião — Tem uma nota sobre a greve na primeira página!...
oTávio — Se até as oito horas da noite não derem o aumento, greve geral na metalúrgica!
Tião — Ninguém tem peito, pai!
oTávio — Como não tem peito? Tá esquecido do ano passado?
Tião — Eu não tava lá.
oTávio — Mas eu estava! Deram o aumento ou não deram?
Tião — Deram parte do aumento, parte! E mesmo assim porque todas as categorias aderiram! Mas aguentá o tranco sozinho, ninguém.
oTávio — Espera só a assembleia de hoje e vai ver se tem peito ou não! Eu tinha avisado, hein! O ano passado entramos em acordo com o patrão e foi o que se viu. Agora, aprenderam.
Tião — E por que entraram em acordo?
oTávio — Porque parte da comissão amoleceu...
Tião — Tá vendo, t’aí! Se, em greve de conjunto metade da turma amoleceu...
oTávio — Metade da turma não senhor! Metade da comissão.
Tião — E então?
oTávio — E então, o quê? Eram pelegos! A turma topava mas tinha meia dúzia deles que eram pelegos. A turma topava, os pelegos deram pra trás.
Tião — Não, pai. Pro senhor, quem não pensa como o senhor é pelego...
oTávio — Nada disso! Eram pelegos no duro. T’aí a
prova: tá tudo bem arrumado na fábrica. Tudo chefe e fiscal. O que é isso? Peleguismo, traidores da classe operária...
Tião — Então metade da turma lá da fábrica é pelego, porque tá tudo com medo da greve!
oTávio (furioso) — Não diz besteira, seu idiota! A turma que t’aí é a mesma turma que fez greve o ano passado e que aguentou tropa de choque em 51...
(GUARNIERI, Gianfrancesco. Eles não usam black-tie. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. p. 42-44.)A peça teatral Eles não usam black-tie, de Gianfrancesco Guarnieri, apresenta como principal marco na dramaturgia brasileira do final da década de 1950, a inovação em relação à temática.
Considere a leitura da peça, bem como o fragmento transcrito (Texto), e assinale a alternativa correta:
Morte e vida severina e O santo e a porca foram concebidas como peças de teatro, ou seja, foram projetadas para interpretação no palco.
Considerando-se tal especificidade e seus enredos, assinale a alternativa que apresenta características comuns às obras.
A carroça sem cavalo
Conta-se que, em noites frias de inverno, descia um forte nevoeiro trazido pelo mar e, nessa noite, ouviam-se muitos barulhos estranhos. Os moradores da cidade de São Francisco, que é a cidade mais antiga de Santa Catarina, eram acordados de madrugada com um barulho perturbador. Ao abrirem a janela de casa, os moradores assustavam-se com a cena: viam uma carroça andando sem cavalo e sem ninguém puxando... Andava sozinha! Na carroça, havia objetos barulhentos, como panelas, bules, inclusive alguns objetos amarrados do lado de fora da carroça. O medo dominou a pequena cidade. Conta-se ainda que um carroceiro foi morto a coices pelo seu cavalo, por maltratar o animal. Nas noites de manifestação da assombração, a carroça saía de um nevoeiro, assustava a população e, depois de um tempo, voltava a desaparecer no nevoeiro.
Disponível em: www.gazetaonline.com.br. Acesso em: 12 dez. 2017 (adaptado).Considerando-se que os diversos gêneros que circulam na sociedade cumprem uma função social específica, esse texto tem por função