Não tem tradução
[...] Lá no morro, se eu fizer uma falseta
A Risoleta desiste logo do francês e do inglês
A gíria que o nosso morro criou
Bem cedo a cidade aceitou e usou
[...]
Essa gente hoje em dia que tem mania de exibição
Não entende que o samba não tem tradução no idioma
francês
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
Com voz macia é brasileiro, já passou de português
Amor lá no morro é amor pra chuchu
As rimas do samba não são I love you
E esse negócio de alô, alô boy e alô Johnny
Só pode ser conversa de telefone
ROSA, N. In: SOBRAL, João J. V. A tradução dos bambas. Revista Língua Portuguesa Ano 4, no 54. São Paulo: Segmento, abr. 2010 (fragmento).As canções de Noel Rosa, compositor brasileiro de VilaIsabel, apesar de revelarem uma aguçada preocupação do artista com seu tempo e com as mudanças político-culturais do Brasil, no início dos anos 1920, ainda são modernas. Nesse fragmento do samba Não tem tradução, por meio do recurso da metalinguagem, o poeta propõe
Daí a pouco, em volta das bicas era um zum-zum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas. Uns, após outros, lavavam a cara, incomoda mente, debaixo do fio de água que escorria da altura de uns cinco palmos. O chão inundavase. As mulheres precisavam já prender as saias entre as coxas para não as molhar; via-se-lhes a tostada nudez dos braços e do pescoço, que elas despiam, suspendendo o cabelo todo para o alto do casco; os homens, esses não se preocupavam em não molhar o pelo, ao contrário metiam a cabeça bem debaixo da água e esfregavam com força as ventas e as barbas, fossando e fungando contra as palmas da mão. As portas das latrinas não descansavam... (Aluísio Azevedo, O Cortiço)
Afonso Romano de Sant’Anna, em sua análise sobre O Cortiço, define o romance, no que tange à filiação ideológica, como contra-ideológico, na medida em que seu autor, “teria praticado em relação à série social uma narrativa contra-ideológica, apontando as falhas do sistema ao denunciar a exploração dos cortiços”, e ideológico, quando, em relação à série literária, “cumpre à risca os preceitos naturalistas seguindo de perto o modelo europeu”.
As assertivas abaixo evidenciam aspectos naturalistas da obra, EXCETO
As alternativas abaixo trazem afirmativas sobre o enredo do livro de Jorge Amado. Assinale a INCORRETA.
Para responder à questão, ler o fragmento do poema “A morte do leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade.
Há pouco leite no país
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
(...)
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este entrou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
(...)
Da garrafa estilhaçada.
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.
De acordo com o texto, afirma-se:
I. Em plena madrugada, o leiteiro cumpre um papel fundamental na distribuição de um leite bom que alimenta inclusive gente ruim.
II. Na sua ríspida e barulhenta marcha, o leiteiro acorda todos que dormem nas casas nas quais o leite é entregue.
III. De forma premeditada, o morador mata o raivoso leiteiro que se aproxima também para assaltá-lo.
IV. Devido a um trágico engano, um cidadão inocente é morto no exercício da profissão.
As afirmativas corretas são, apenas,
Para responder à questão, leia o trecho a seguir, no contexto da obra O Ateneu, de Raul Pompéia, e as afirmativas.
"Mal tinha eu entrado, senti que duas mãos, no fundo, prendiam-me o tornozelo, o joelho. A um impulso violento caí de costas; a água abafou-me os gritos, cobriu-me a vista. Senti-me arrastado. Num desespero de asfixia, pensei morrer. Sem saber nadar, vi-me abandonado em ponto perigoso; e bracejava, à toa, imerso a desfalecer, quando alguém me amparou. Um grande tomou-me ao ombro e me depôs à borda, estendido, vomitando água. Levei algum tempo para me inteirar do que ocorrera. Esfreguei por fim os olhos e verifiquei que o Sanches me tinha salvo. “Ia afogar-se!” disse ele, amparando-me a cabeça enquanto me desempastava os cabelos de cima dos olhos. Meio aturdido ainda, contei-lhe efusivamente o que me haviam feito. “Perversos!” observou-me o colega com pena, e atribuiu a brutalidade a qualquer peste que fugira no atropelo dos nadadores, desvelando-se em solicitudes por tranquilizar-me. Tive depois motivo para crer que o perverso e a peste fora-o ele próprio, na intenção de fazer valer um bom serviço”.
I. A violência recorrente num ambiente de confinamento mostra ao personagem principal a lógica da dominação dos mais fracos pelos mais fortes.
II. A expressão “fazer valer um bom serviço” explicita o trabalho duplo de Sanches: apresentar um suposto perigo e ao mesmo tempo oferecer proteção ao aluno novato.
III. O incêndio que devastaria o colégio Ateneu, provocado pelo personagem principal do romance, é um último ato de violência, que dá fim à obra de Raul Pompéia.
IV. Com teor memorialista, a obra O Ateneu, uma crônica de saudades, traz um narrador em primeira pessoa do singular, chamado Franco.
As afirmativas corretas são, apenas,
Para responder à questão, leia o excerto a seguir, da obra Manuelzão e Miguilim, de Guimarães Rosa.
Daí, dos demais, deu tudo vagalume. – “Olha quanto mija-fogo se desajuntando no ar, bruxolim deles parece festa!” (...) Dito arranjava um vidro vazio, para guardar deles vivendo. Dito e Tomezinho corriam no pátio, querendo pegar, chamavam – “Vagalume, lume, lume, seu pai, sua mãe estão aqui!...” Mãe minha Mãe. O vagalume. Mãe gostava, falava, afagando os cabelos de Miguilim: - “O lumêio deles é um acenado de amor” (...) Um vagalume se apaga descendo ao fundo do mar. – ‘Mãe, que é que é o mar, Mãe?’ Mar era longe, muito longe dali, espécie duma lagoa enorme, um mundo d’água sem fim, Mãe mesma nunca tinha avistado o mar, suspirava. – ‘Pois, Mãe, então mar é o que a gente tem saudade?’ Miguelim parava. Drelina espiava em sonho, da janela.
Com base no excerto e em seu contexto, considere as seguintes afirmativas:
I. O texto de Guimarães Rosa provoca um estranhamento no leitor, por conta de seus desvios linguísticos, como inversões sintáticas, emprego de um léxico sertanejo e utilização de neologismos.
II. A definição do mar, trazida pela mãe, primeiramente é espacial, relacionada à ausência. Apenas num segundo momento essa definição é figurativa.
III. Com estrutura narrativa complexa e linguagem inovadora, Os Sertões é a obra-prima de Guimarães Rosa.
IV. Podemos inferir pelo trecho que Miguelim, na verdade, conheceu o mar quando menor, uma vez que provavelmente sente saudade do tempo em que brincava na praia como as outras crianças.
As afirmativas corretas são
Leia o fragmento do “Sermão do bom ladrão”, de Padre Antônio Vieira.
(...) Quantas vezes se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter roubado um carneiro; e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?
(TUFANO, D. Estudos de literatura brasileira. 4 ed. rev. e ampl. São Paulo: Moderna, 1988. p. 71.)As afirmações seguintes referem-se ao fragmento acima. I. Nesse sermão, padre Antônio Vieira denuncia a hipocrisia da sociedade e o valor conferido ao poder. II. Pelo viés da crítica à impunidade, é possível fazer uma aproximação das palavras do padre, no século XVII, com a realidade brasileira de hoje. III. A metonímia, utilizada para construir o raciocínio nesse fragmento, é uma das características da linguagem rebuscada do Barroco. Das afirmações acima,
As afirmações que seguem são referentes às obras Memórias póstumas de Brás Cubas, Til e O cortiço. Após analisá-las, assinale a opção correta.
Leia o seguinte excerto do livro A hora da estrela, de Clarice Lispector.
Proponho-me a que não seja complexo o que escreverei, embora obrigado a usar palavras que vos sustentam. A história – determino com falso livre-arbítrio – vai ter uns sete personagens e eu sou um dos mais importantes deles, é claro. Eu, Rodrigo S. M. Relato antigo, este, pois não quero ser mordenoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentarei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e de chuva caindo.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 12-13.Com base nesse texto, considere as seguintes afirmações.
I. Nesse romance, Clarice recupera, parodicamente, um procedimento muito utilizado por escritores no século 19: o uso de um pseudônimo com o qual assina o livro, Rodrigo S. M.
II. Em A hora da estrela, Rodrigo S. M. é, ao mesmo tempo, personagem e narrador e é como narrador que nos conta a história da protagonista, Macabéa.
III. É por meio do ponto de vista do narrador-personagem, Rodrigo S. M., namorado de Macabéa, que a história dela será focalizada na narrativa.
As afirmações I, II e III são, respectivamente,
Leia as estrofes finais do poema “A máquina do mundo”, do livro Claro enigma.
(...) baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.
Com base nesse fragmento e no poema inteiro, considere as seguintes afirmações.
I. Nesse poema, Drummond dialoga com Camões e Dante, tanto na forma quanto no tema.
II. Em Claro enigma, Carlos Drummond rompe com a estética modernista, como exemplifica esse poema, que vai recuperar o ritmo clássico do verso decassílabo.
III. Ao contrário de Vasco da Gama, o herói de Os lusíadas, o eu lírico desse poema se recusa a contemplar o conteúdo da máquina do mundo.
As afirmações I, II e III são respectivamente