Fragmento 1:
Fabiano atentou na farda com respeito e gaguejou, procurando as palavras de seu Tomás da Bolandeira:
− Isto é. Vamos e não vamos. Quer dizer. Enfim, contanto, etc. É conforme.
...
(...) Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito?
Fragmento 2:
(...) Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de Sinha Terta, pediu informações. Sinha Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros.
...
(...) Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se a saia da mãe: − Como é?
Sinha Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.
− A senhora viu?
Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote.
O menino saiu indignado com a injustiça (...).
Ao ser indagada pelo menino mais velho sobre como era o inferno, Sinha Vitória definiu como “lugar ruim demais” com “espetos quentes e fogueiras”. A opção que justificaria Sinha Vitória ter aplicado um “cocorote” no filho é o fato de:
Leia o trecho do capítulo CXLIV de Memórias póstumas de Brás Cubas, romance de Machado de Assis, para responder à questão.
Depois do almoço fui à casa de D. Plácida; achei um molho de ossos, envolto em molambos, estendido sobre um catre velho e nauseabundo; dei-lhe algum dinheiro. No dia seguinte fi-la transportar para a Misericórdia, onde ela morreu uma semana depois. Minto: amanheceu morta; saiu da vida às escondidas, tal qual entrara. Outra vez perguntei, a mim mesmo, como no capítulo LXXV, se era para isto que o sacristão da Sé e a doceira trouxeram D. Plácida à luz, num momento de simpatia específica. Mas adverti logo que, se não fosse D. Plácida, talvez os meus amores com Virgília tivessem sido interrompidos, ou imediatamente quebrados, em plena efervescência; tal foi, portanto, a utilidade da vida de D. Plácida. Utilidade relativa, convenho; mas que diacho há absoluto nesse mundo?
(Memórias póstumas de Brás Cubas, 1998.)Ao se referir à utilidade da vida de D. Plácida, o personagem Brás Cubas revela
É uma geração que corresponde aos ensaios de neodemocracia marcados pela revolução de 32 e pela Constituição de 34, como a anterior representava o apogeu e a queda da democracia conservadora correspondente ao capitalismo cafeeiro.
Para falar a verdade, com os de 30 é que começa a literatura brasileira. Surgem os escritores que pouco devem ao modelo estrangeiro, os estudiosos que começam a sistematizar o estudo do Brasil e proceder à análise generalizada de seus problemas. A geração de 20 foi mais um estouro de enfants-terribles. Tem muito do personalismo faroleiro de Oswald de Andrade, que qualificava a si mesmo de “palhaço da burguesia”. A de 30 é o historicismo grande- burguês de Gilberto Freyre, e é também o realismo de Caio Prado Júnior. (Adaptado de Antonio Candido. Textos de intervenção. S. Paulo: Duas Cidades/Editora 34, 2002. p. 239 e 240)Ao se referir à geração de 20, o crítico se mostra bastante severo ao avaliar as
Despensa o commentario. Basta anunciar. Natal a noite. Estamos vendo uma cidade quieta como se aprendesse o movimento com as mumias pharaonicas. Sob a luz (quando ha) das lampadas amarellas arrastam, meia duzias de creaturas magras, uma ―pose‖ melancolica de Byrons papa-gerimúns.
Depois, um ―film‖ no Royal ou Rio Branco ou poker somnolento do Natal club. Estive uns tempos inquerindo de como alguns amigos meus passavam as primeiras horas da noite. As respostas ficam todas catalogadas em trez classes. Indolencia. Ficam em casa e tentam ler. Sahem e não havendo (desde que morreu Parrudo) nada de novo entre nós, deixam-se ficar madorrando numa praça silenciosa. Instincto de elegância. Natal club. Ahi está como vive a noite um rapaz nesta terra de vates e de enchentes.
CASCUDO, Luís da Câmara. A noite em Natal. In: Crônicas de origem: a cidade do Natal nas crônicas cascudianas dos anos 20. Natal: EDUFRN, 2005, p. 86.Ao se referir a "Byrons papa-gerimúns", o cronista considera as personagens da vida cultural da cidade como
Soneto
Meu Deus, que estais pendente em um madeiro,
Em cuja lei protesto viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme, e inteiro.
Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
E, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai manso Cordeiro.
Mui grande é vosso amor, e meu delito,
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito.
Esta razão me obriga a confiar,
Que por mais que pequei, neste conflito
Espero em vossoamor de me salvar.
A musicalidade é um dos recursos estilísticos pertinentes ao gênero lírico, que colabora com a construção do significado do poema.
Ao se examinar o ritmo dos versos de Soneto, constata-se que todos são decassilábicos, exceto um que é eneassilábico, identificado como sendo o
Leia o texto de Drauzio Varella para responder a questão.
No leito de morte os religiosos talvez levem vantagem: podem rezar, fazer promessas, pedir que o Jesus deles se apiede, que lhes conceda a glória da vida eterna, ou agarrar- -se a outro pensamento mágico que torne a realidade menos inclemente. Mas nem todos são bem-aventurados, conheci alguns que se revoltaram contra o Deus em quem depositaram tantas esperanças, por havê-los abandonado. Tratei de um pastor protestante que fumava dois maços de cigarro por dia, mas, quando teve um câncer de pulmão aos cinquenta anos, ficou tão indignado que só se referia a Deus como “o ingrato”.
De minha parte, nunca fui religioso, nem haveria de converter-me por arrependimento, covardia ou iluminação.
Não terá sido por falta de formação católica: quando dei conta de mim, já haviam me ensinado a rezar. Uma das poucas imagens que guardo de minha mãe em nossa casa no Brás é a de uma tia rezando com ela, para que Deus lhe devolvesse a saúde. Minha avó paterna não ia para a cama sem passar em meu quarto para me cobrir e recomendar que não esquecesse das preces pela mamãe e para Deus proteger nossa família, conselho que apesar da preguiça era seguido à risca, de medo que por minha culpa a alma materna fosse maltratada no céu.
(O médico doente, 2007.)Ao relatar o caso do pastor protestante, Drauzio Varella
Quando Bauer, o de pés ligeiros, se apoderou da cobiçada esfera, logo o suspeitoso Naranjo lhe partiu ao encalço, mas já Brandãozinho, semelhante à chama, lhe cortou a avançada. A tarde de olhos radiosos se fez mais clara para contemplar aquele combate, enquanto os agudos gritos e imprecações em redor animavam os contendores. A uma investida de Cárdenas, o de fera catadura, o couro inquieto quase se foi depositar no arco de Castilho, que com torva face o repeliu. Eis que Djalma, de aladas plantas, rompe entre os adversários atônitos, e conduz sua presa até o solerte Julinho, que a transfere ao valoroso Didi, e este por sua vez a comunica ao belicoso Pinga. (...)
Assim gostaria eu de ouvir a descrição do jogo entre brasileiros e mexicanos, e a de todos os jogos: à maneira de Homero. Mas o estilo atual é outro, e o sentimento dramático se orna de termos técnicos.
Carlos Drummond de Andrade, Quando é dia de futebol. Rio: Record, 2002.Ao narrar o jogo entre brasileiros e mexicanos “à maneira de Homero”, o autor adota o estilo
Leia o resumo a seguir:
Na Literatura Brasileira, Machado de Assis destacou-se como escritor consciente dos estilos literários de seu tempo e crítico deles. Entre seus escritos, os romances de análise psicológica e os contos tornaram-se atemporais devido a atualidade dos temas. “Conto de escola”, particularmente, pode ser lido em qualquer época, pois o autor realista narra o primeiro contato de um menino, Pilar, com a corrupção e a delação. Tudo começa na escola, em sala de aula, quando Raimundo, filho do mestre, oferece uma moeda a Pilar, seu colega de classe, em troca de umas lições de sintaxe. Conforme o próprio Pilar afirma, teria ajudado o filho do mestre de qualquer modo, sem que este precisasse lhe dar algo em troca. Faria isso só por solidariedade, senso de companheirismo, normalmente considerados na sociedade como características de pessoas de bom caráter. Entretanto, algo leva Pilar a aceitar a moeda que lhe foi oferecida em troca do favor. Outro colega de sala, Curvelo, percebe o que ocorre e denuncia os colegas ao professor. Ambos, Raimundo e Pilar, são castigados com doze bolos de palmatória cada.
Ao narrar essa história, o contista parece ter a concepção de que não somos honestos ou estamos pré-dispostos à desonestidade desde a infância. Que traço é esse do caráter humano a que ele se refere na obra?
1964
Abril, 1 − E, de repente, foi-se o Governo Goulart, levando consigo o Comando Geral dos trabalhadores. Em menos de dois dias, tudo se esfarelou. O Presidente da República, tão seguro de si ao falar aos “senhores sargentos”, fugiu de avião para lugar ainda não sabido. Não tinha a força que pensava − e que outros pensavam que ele tivesse.
Abril, 13 − Baixado Ato Institucional, que atenta rudemente contra o sistema democrático. O Congresso, já tão inexpressivo, passa a ser uma pobre coisa tutelada. Vamos ver o que será das liberdades públicas.
(Carlos Drummond de Andrade. O observador no escritório. Rio de Janeiro: Record, 1985. p. 148 e 149)Ao longo dos vários anos do regime instaurado em 1964, a literatura brasileira expandiu-se em obras como as de Rubem Fonseca, João Antônio e Dalton Trevisan, nas quais são explícitos os componentes
Eu gosto tanto de ouvir os pingos de minutos do tempo assim: tic-tac-tic-tac-tic-tac.
Ao longo do texto, o narrador descreve Macabéa como ignorante, o que contrasta com a frase da personagem. O contraste se dá porque frases como a citada acima mostram um uso de linguagem que pode ser definido como: