Leia este fragmento do poema Marabá, de Gonçalves Dias.
Eu vivo sozinha; ninguém me procura!
Acaso feitura
Não sou de Tupá?
Se algum dentre os homens de mim não se esconde,
— Tu és, me responde,
— Tu és Marabá!
— Meus olhos são garços, são cor das safiras,
— Têm luz das estrelas, têm meigo brilhar;
— Imitam as nuvens de um céu anilado,
— As cores imitam das vagas do mar!
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos:
"Teus olhos são garços,
Responde anojado; "mas és Marabá:
"Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes,
"Uns olhos fulgentes,
"Bem pretos, retintos, não cor d'anajá!"
Disponível em: https://www.escritas.org/pt/t/13053/maraba. Acesso em: 18/3/20. Acesso em: 25 mar. 2020 (adaptado).
Os versos de Gonçalves Dias, pertencentes à vertente indianista, abordam o sentimento amoroso do indígena.
A voz sentimental do eu lírico evidencia
O texto abaixo é de autoria do poeta maranhense Maranhão Sobrinho (1879-1915), composto numa São Luís do início do século XX, período de intenso debate intelectual sobre o resgate do valor literário maranhense, no cenário nacional do século XIX.
Leia, com atenção, o texto poético para responder à questão que segue.
Ânsia inocente
Ai! Como bom para nós dois seria
Se o bom Deus, dessas lendas milagrosas,
Cheio de amor, nos concedesse um dia
Dois brancos pares de asas vaporosas!
Não sei mesmo, de alegre, o que eu faria!
Deixando os lírios e deixando as rosas,
feliz contigo às nuvens subiria
para o noivado em flor das nebulosas...
na carícia de pluma de uma Trova.
Viveríamos nós, nós dois sozinhos,
Lá nas terras fiéis da Lua-Nova...
Morrer longe dos homens e das casas
Se Deus nos desse, como aos passarinhos,
Dois brancos pares de travessas asas!
Fonte: SOBRINHO, Maranhão. Papéis Velhos... Roídos pela Traça do Símbolo. São Luís: Tipografia Frias, 1908.A voz poética, explorando possibilidades expressivas propostas no Simbolismo, revela a existência de
A voz narrativa do interlocutor de “A sereníssima república”, de Machado de Assis, apresenta-se:
As casas [antes] não tinham tantas grades e existiam poucos condomínios guardados por seguranças particulares. Os condomínios de hoje mais parecem fortalezas medievais, como as de desenhos animados. São iguais àquelas de onde o bravo cavaleiro tenta salvar a donzela presa na torre.
Era bem menos perigoso andar nas ruas. Imagine que as pessoas nem se preocupavam em sair por aí cheias de joias de ouro no pescoço, pulso ou dedos. Falava-se pouco em meninos de rua, até porque não eram muitos. As mulheres não tinham a menor vontade de frequentar academias para aprender a usar um revolver – muito menos meninos.
Antigamente, os bandidos eram “profissionais” e desprezavam colegas que usassem a violência. Essas estrelas do submundo nem andavam armadas. Era a época dos batedores de carteiras que tinham as mãos tão ágeis como as de um mágico. Enfiavam sutil e eficazmente as mãos no bolso da vítima, que só percebia o prejuízo em casa.
Mas a situação mudou. Os “profissionais”, vistos até com certa admiração popular, desapareceram. Instalou-se a barbárie. Surgiram gangues de violentos adolescentes que atacam crianças para tirar seu tênis. Isso acontece muitas vezes na frente da escola, em plena luz do dia.
DIMENSTEIN, Gilberto. O cidadão de papel: A infância, a adolescência e os Direitos Humanos no Brasil. São Paulo: Ática, 1994. p. 29-30.A voz autoral, nesse fragmento da obra “O cidadão de papel”,
Vagabundo
Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo e sou ditoso!
Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobrezas.
(...)
(Álvares de Azevedo)
A visão de mundo expressa pelo eu lírico nos versos de Álvares de Azevedo revela o(a)
Embora se integrassem nele figuras e grupos preocupados de construir, o espírito modernista que avassalou o Brasil, que deu o sentido histórico da Inteligência nacional desse período, foi destruidor. Mas esta destruição, não apenas continha todos os germes da atualidade, como era uma convulsão profundíssima da realidade brasileira. O que caracteriza esta realidade que o movimento modernista impôs, é, a meu ver, a fusão de três princípios fundamentais: O direito permanente à pesquisa estética; a atualização da inteligência artística brasileira; e a estabilização de uma consciência criadora nacional.
ANDRADE, Mário de. O movimento modernista. In: Aspectos da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1978. p. 242.A visão de Mário de Andrade, sobre o primeiro momento do Modernismo Brasileiro, apresentada acima, relacionava:
O homem utilitarista do século XVIII transforma utensílios de madeira em um torno por diversão, e fantasia que pode transformar os homens da mesma maneira. Mas não tem grandes dotes para a poesia, e mal sabe extrair a moral de uma obra de Shakespeare. Sua casa é aquecida e iluminada a vapor. Ele é um desses que preferem as coisas artificiais em detrimento das naturais, e pensa que a mente humana é onipotente. Ele sente grande desprezo pelas possibilidades da vida ao ar livre, pelos verdes campos e pelas árvores, e sempre reduz tudo aos termos da Utilidade.
(W. Hazlitt. O Espírito do Século, apud Eric J. Hobsbawm. A Era das Revoluções − 1789-1848. Trad. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977, p. 255)A vida ao ar livre e a paisagem bucólica de verdes campos foram cantadas pela poesia arcádica, como nos versos líricos de Cláudio Manuel da Costa, em que o poeta, todavia,
A viagem
Que coisas devo levar
nesta viagem em que partes?
As cartas de navegação só servem
a quem fica.
Com que mapas desvendar
um continente
que falta?
Estrangeira do teu corpo
tão comum
quantas línguas aprender
para calar-me?
Também quem fica
procura
um oriente.
Também
a quem fica
cabe uma paisagem nova
e a travessia insone do desconhecido
e a alegria difícil da descoberta.
O que levas do que fica,
o que, do que levas, retiro?
A viagem e a ausência remetem a um repertório poético tradicional. No poema, a voz lírica dialoga com essa tradição, repercutindo a
A verve satírica do poeta Gregório de Matos está bem exemplificada nos seguintes versos:
Crescia naturalmente
Fazendo estripulia,
Malino e muito arguto,
Gostava de zombaria.
A cabeça duma escrava
Quase arrebentei um dia.
E tudo isso porque
Um doce me havia negado,
De cinza no tacho cheio
Inda joguei um punhado,
Daí porque a alcunha
De “Menino Endiabrado”.
Prudêncio era um menino
Da casa, que agora falo.
Botava suas mãos no chão
Pra poder depois montá-lo:
Com um chicote na mão
Fazia dele um cavalo.
(Varneci Nascimento. Memórias póstumas de Brás Cubas em cordel.)A versão modificada, adaptada à oralidade – como usualmentese dá na produção da literatura de cordel – apresenta termos semelhantes aos do texto original de Machado de Assis, que podem ser identificados em todas as palavras da alternativa