MULHER: - Que é que vocês estão combinando aí?
JOÃO GRILO: - Estou dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro, na parte do dinheiro que ele deixou para o padre e para o sacristão.
SACRISTÃO - Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?
JOÃO GRILO: - Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que meu patrão entendeu, com a minha patroa, e é claro que ele queria ser abençoado pelo padre e morrer como cristão. Mas nem assim ele sossegou. Foi preciso que o patrão prometesse que vinha encomendar a bênção e que, no caso dele morrer, teria um enterro em latim. Que em troca do enterro acrescentaria no testamento dele dez contos de réis para o padre e três para o sacristão.
SACRISTÃO: - (enxugando uma lágrima) Que animal inteligente! Que sentimento nobre!
(SUASSUNA, Ariano. Auto da Compadecida. 31.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1997)A leitura das peças teatrais de Ariano Suassuna nos faz mergulhar nas nossas origens culturais. Suassuna é um contador de histórias que pratica a intertextualidade na construção de suas narrativas e prepara o leitor para uma moral conforme a filosofia medieval cristã. Especificamente sobre a peça “Auto da Compadecida” NÃO é correto afirmar que:
Instrução: A questão toma por base umpoema de Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810).
18
Não vês aquele velho respeitável,
que à muleta encostado,
apenas mal se move e mal se arrasta?
Oh! quanto estrago não lhe fez o tempo,
o tempo arrebatado, que o mesmo bronze gasta!
Enrugaram-se as faces e perderam
seus olhos a viveza:
voltou-se o seu cabelo em branca neve;
já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo,
nem tem uma beleza
das belezas que teve.
Assim também serei, minha Marília,
daqui a poucos anos,
que o ímpio tempo para todos corre.
Os dentes cairão e os meus cabelos.
Ah! sentirei os danos,
que evita só quem morre
Mas sempre passarei uma velhice
muito menos penosa.
Não trarei a muleta carregada,
descansarei o já vergado corpo
na tua mão piedosa,
na tua mão nevada.
As frias tardes, em que negra nuvem
os chuveiros não lance,
irei contigo ao prado florescente:
aqui me buscarás um sítio ameno,
onde os membros descanse,
e ao brando sol me aquente.
Apenas me sentar, então, movendo
os olhos por aquela
vistosa parte, que ficar fronteira,
apontando direi: — Ali falamos,
ali, ó minha bela,
te vi a vez primeira.
Verterão os meus olhos duas fontes,
nascidas de alegria;
farão teus olhos ternos outro tanto;
então darei, Marília, frios beijos
na mão formosa e pia,
que me limpar o pranto.
Assim irá, Marília, docemente
meu corpo suportando
do tempo desumano a dura guerra.
Contente morrerei, por ser Marília
quem, sentida, chorando
meus baços olhos cerra.
(Tomás Antônio Gonzaga. Marília de Dirceu e mais poesias. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1982.)A leitura atenta deste poema do livro Marília de Dirceu revela que o eu lírico
Como no caso de movimentos literários anteriores, o resultou de impulsos internos e do exemplo europeu. No caso, as vanguardas francesas e italianas que ofereceram modelos adequados para exprimir a civilização mecânica e o ritmo das grandes cidades, além de valorizar as componentes primitivas, que no Brasil faziam parte da realidade.
(Antonio Candido. Iniciação à literatura brasileira, 2010. Adaptado.)A lacuna do texto deve ser preenchida por:
Leia o comentário do crítico literário Alfredo Bosi.
Visto à luz da cultura europeia, o ________________ reage às correntes analíticas dos meados do século XIX, assim como o Romantismo reagira à Ilustração triunfante em 1889. Ambos os movimentos exprimem o desgosto das soluções racionalistas e mecânicas e nestas reconhecem o correlato da burguesia industrial em ascensão; ambos recusam-se a limitar a arte ao objeto, à técnica de produzi-lo, a seu aspecto palpável; ambos, enfim, esperam ir além do empírico e tocar, com a sonda da poesia, um fundo comum que susteria os fenômenos, chame-se Natureza, Absoluto, Deus ou Nada.
(História concisa da literatura brasileira, 1994. Adaptado.)A lacuna do texto deve ser preenchida por
Leia o comentário do crítico literário Massaud Moisés publicado em 1988.
Há um Camões lírico e um Camões épico, um medieval e um clássico, e tem-se divisado um Antero “das luzes” e um Antero “das sombras”. No entanto, somente ________________ explorou todos os efeitos possíveis dessa cisão natural em que mergulha o poeta quando exercita o seu ofício de expressar a sua e/ou a nossa interioridade por meio dos versos. Ao estilhaçar o sujeito poético, pela multiplicação heteronímica, ele igualmente desintegra o objeto poético: a matéria poética, a temática, sobre que cada um dos heterônimos se debruça não é a mesma, ainda que nela se encontre uma unidade subjacente à diversidade.
A lacuna do texto deve ser preenchida pelo nome do seguinte poeta modernista:
Leia o trecho do poema abaixo para responder à questão.
Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
A inversão, figura muito usada pela estética poética, está presente em todos os itens da alternativa
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
A Cartomante (Machado de Assis)A intertextualidade é um recurso criativo utilizado na produção do texto. No conto, Machado de Assis dialoga com o clássico “Hamlet” de Shakespeare com o fito de:
Parte, e reparte, eu falo que a melhor parte
É quando se parte com arte, a parte que nos tocou
O epicarpo, o mesocarpo, o endocarpo
Todo mundo policarpo, brasileiro sim senhor
A intertextualidade com o romance de Lima Barreto, no fragmento acima, sugere que
A intertextualidade aparece no romance Eu vos abraço,milhões, de Moacyr Scliar, por meio do recurso das
O que singulariza o pessimismo de Machado de Assis é a sua posição antagônica em relação ao evolucionismo oitocentista, ao culto do progresso e da ciência. Frente às ingenuidades do cientificismo, o sarcasmo de Brás Cubas reabre a interrogação metafísica, a perplexidade radical ante a variedade do ser humano. Um artista como Machado levou mais a sério do que os arautos do evolucionismo cientificista o golpe que Darwin tinha desfechado contra as ilusões antropocêntricas da humanidade.
(MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. Rio de Janeiro: José Olympio, 1977, p. 171-172)A interrogação metafísica fez parte das preocupações de diversos pensadores e artistas durante o Renascimento. Nesse período, observa-se a contestação de ideias como