Texto II
[...]
Almiro foi o primeiro dos Capitães da Areia que caiu com alastrim. Uma noite, quando o negrinho Barandão o procurou no seu canto para fazer o amor (aquele amor que Pedro Bala proibira no trapiche),
Almiro lhe disse:
– Tou com uma coceira danada.
Mostrou os braços já cheios de bolhas a Barandão:
– Parece que também tou queimando de febre.
[...]
Os meninos foram se levantando aos poucos e se afastando receosos do lugar onde estava Almiro. Este começou a soluçar. Pedro Bala não tinha chegado ainda. Professor, o Gato e João Grande também andavam por fora. Daí ter sido o Sem-Pernas quem dominou a situação. O Sem-Pernas nestes últimos tempos andava cada vez mais arredio, quase não falava com ninguém. Fazia espantosas burlas de todo mundo, por tudo puxava uma briga, [...]
Barandão o olhou assustado. Depois, Sem-Pernas falou para todos, apontando Almiro com o dedo:
– Ninguém aqui vai ficar bexiguento só por causa deste fresco.
Todos o olhavam, esperando o que ele diria. Almiro soluçava, as mãos no rosto, encolhido na parede. Sem-pernas falava:
– Ele vai sair daqui agorinha mesmo. Vai se meter em qualquer canto da rua até que os mata-cachorro da saúde pegue ele e leve pro lazareto.
– Não. Não – rugiu Almiro.
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.Embora a narrativa de Capitães da Areia seja em 3ª pessoa, o narrador utiliza estratégias para revelar pontos de vista individualizados ou dar enfoque explicativo a um dado que julga importante. Essa característica está exemplificada no trecho:
O trecho a seguir, extraído de Verão no Aquário, é um diálogo entre as personagens Patrícia e Raíza, respectivamente mãe e filha. Leia-o para responder à questão que segue.
- Vou pedir à titia que vista uma roupa de fada e me transforme num peixe. Deve ser boa a vida de peixe de aquário, murmurei.
- Deve ser fácil. Aí ficam eles dia e noite, sem se preocupar com nada, há sempre alguém para lhes dar de comer, trocar a água... Uma vida fácil, sem dúvida. Mas não boa. Não esqueça de que eles vivem dentro de um palmo de água quando há um mar lá adiante.
- No mar seriam devorados por um peixe maior, mãezinha.
- Mas pelo menos lutariam. E nesse aquário não há luta, filha. Nesse aquário não há vida.
A pontuação no texto escrito constitui uma pista segura para o entendimento pretendido pelo discurso.
Em, “há sempre alguém para lhes dar de comer, trocar a água...” (2º.§), as reticências
O fragmento a seguir foi extraído do capítulo Despedida às travessuras. Nele, narram-se as traquinagens de Leonardo durante uma procissão que representava a via-sacra.
[...] Era a via-sacra do Bom Jesus.
Há bem pouco tempo existiam ainda em certas ruas desta cidade cruzes negras pregadas pelas paredes de espaço em espaço.
Às quartas-feiras e em outros dias da semana saía do Bom Jesus e de outras igrejas uma espécie de procissão composta de alguns padres conduzindo cruzes [...] Caminhavam eles em charola atrás da procissão, interrompendo a cantoria com ditérios em voz alta, ora simplesmente engraçados, ora pouco decentes; levavam longos fios de barbante, em cuja extremidade iam penduradas grossas bolas de cera. Se ia por ali ao seu alcance algum infeliz, a quem os anos tivessem despido a cabeça dos cabelos, colocavam-se em distância conveniente e, escondidos por trás de um ou de outro, arremessavam o projétil que ia bater em cheio sobre a calva do devoto; puxavam rapidamente o barbante, e ninguém podia saber donde tinha partido o golpe. Essas e outras cenas excitavam vozeria e gargalhadas na multidão.
Era a isto que naqueles devotos tempos se chamava correr a via-sacra.
ALMEIDA, M. A. Memórias de um Sargento de Milícias. Porto Alegre: L&PM, 2015.Os pronomes demonstrativos, em certos contextos, além de sua função coesiva, atuam como recurso estilístico.
Em “Era a isto que naqueles devotos tempos se chamava correr a via-sacra.”, o pronome “isto”, ao retomar o parágrafo anterior, e associado ao adjetivo devotos, sugere, na fala do narrador, um tom
Leia o texto que segue para responder à questão.
Manuel Bandeira, autor de Libertinagem (1930), insere-se na primeira Geração do Modernismo no Brasil. Sua obra, também influenciada por sua história de vida, rompeu com os padrões rígidos ditados pela produção anterior ao Modernismo. Ocupa lugar de relevância na produção poética brasileira no séc. XX, sendo um dos poetas conhecidos e estudados na contemporaneidade. Especificamente, Libertinagem acompanha o ideário do grupo modernista da Semana de 22.
Lenda brasileira
A moita buliu. Bentinho Jararaca levou a arma à cara: o que saiu do mato foi o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no chão. Quis puxar o gatilho e não pôde.
- Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.
BANDEIRA, M. Libertinagem. 2 ed. São Paulo: Global, 2013.Em “A moita buliu”, considerando o contexto do poema, o verbo destacado tem sentido semelhante na seguinte frase:
Durante todo o mês de junho no Brasil foram presenciadas várias manifestações contrárias à ordem política vigente. As ruas brasileiras abrigaram multidões de libertários independentes, não ideológicos, cansados de corrupção e descaso. Dado esse cenário, formamos o seguinte argumento: Todos os brasileiros indignados protestaram. Alguns brasileiros que protestaram são estudantes. Alguns brasileiros que protestaram são vândalos. Logo, alguns brasileiros são vândalos. O argumento construído é por
Texto
XXXII
[...]
(Louvado seja Deus que não sou bom,
E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa – existir claramente,
E saber fazê-lo sem pensar nisso. [...]
CAEIRO, Alberto. O guardador de rebanhos. Belém, PA: Ed. Estudos Amazônicos, 2012.Depreende-se pela leitura do fragmento que o mundo para o eu poético é viver
Leia o poema a seguir para responder à questão.
Se um poeta falar num gato
Se o poeta falar num gato, numa flor,
num vento que anda por descampados e desvios
e nunca chegou à cidade...
se falar numa esquina mal e mal iluminada...
numa antiga sacada... num jogo de dominó...
se falar naqueles obedientes soldadinhos de chumbo que morriam de verdade...
se falar na mão decepada no meio de uma escada
de caracol...
Se não falar em nada
e disser simplesmente tralalá... Que importa?
Todos os poemas são de amor!
No poema, nota-se a presença reiterada da preposição "em", que se liga ao verbo falar, acrescentando-lhe um termo nominal dependente. Em alguns versos, seu emprego dá-se em contração com artigos definidos e indefinidos e com pronome demonstrativo.
Considerando o sentido contextual que essa preposição apresenta no poema, a relação semântica que se estabelece entre os termos que ela liga é de
Texto VI
O meu guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando não sei explicar
Fui assim levando, ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá, olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço para enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço?
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
www.recantodasletras.com.br.chicobuarque.Considerando o contexto social, em que essa canção foi escrita, depreende-se que a letra de O meu guri tem a intenção de metaforizar
Texto IX
Homem e Máquina
Desde que as primeiras máquinas começaram a atuar em fábricas, as queixas sobre a perda de postos de trabalho são constantes. Um estudo divulgado em 2015 revelou que a tecnologia, na verdade, criou mais empregos do que eliminou.
“A tendência de reduzir postos de trabalho na agricultura e na indústria é compensada pelo rápido crescimento nos setores de serviços, criatividade e tecnologia”, dizem os economistas que analisaram dados dos últimos 144 anos para avaliar como os avanços na tecnologia afetaram o emprego na Inglaterra e no País de Gales. Eles falam em uma “mudança profunda” nas relações de trabalho. [...]
Os dados confirmam a ideia de que os robôs livram o homem de trabalhos pesados ou degradantes. As inovações tecnológicas reduziram os postos de trabalho em atividades maçantes, perigosas e repetitivas. O setor agrícola foi o primeiro a se beneficiar disso. [...]
Uma pesquisadora de Massachussets Institute of Technology (MIT), especialista nas relações humanosrobôs, é menos alarmista em relação à perda de postos para as máquinas. “A automação pode até ter substituído os humanos em algumas áreas, mas a tecnologia atual ainda não é suficiente para o trabalho totalmente sem humanos. Isso significa que boa parte do desenvolvimento hoje vai na direção de termos robôs criados para trabalhar com os humanos, em vez de substituí-los”, afirmou à PLANETA.
Um professor do departamento de Ciência da Computação da USP preocupa-se com uma troca de mão de obra. “Os robôs deveriam substituir o trabalho humano apenas em duas condições: na medida em que o trabalho desagrada o ser humano e na medida em que se dê um trabalho mais digno para a pessoa substituída”, avalia. Para ele, há risco de as pessoas tratarem colegas como máquinas.
Revista Planeta. 2017. (Adaptado).Considerando as ideias expostas no texto sobre a relação homem e máquina, compreende-se que o artigo apresenta
Leia o fragmento a seguir para responder à questão 10.
Texto VII
Até ali a viagem tinha sido calma, o barco subindo e descendo suavemente na correnteza do canal. Agora tudo mudava. O mar alto dir-se-ia não querer aceitar no seu dorso o peso da embarcação que o vento empurrava, e de repente reagia, com uma onda alta atrás de outra, sempre rebramindo. A quilha da proa aceitava o desafio, repetindo a investida bravia, e outra vez a toalha de espuma era rasgada ao meio, por entre o rangido da mastreação.
A luz da tarde tinha-se tisnado com as primeiras sombras do anoitecer. Não se via mais a tonalidade rósea, riscada de barras sanguíneas, que tomava o horizonte quando o sol se escondia. [...]
[...] O próprio vento tinha ali uma voz diferente, a esfuziar no velame, a correr por cima das ondas. Criado ouvindo-lhe os gemidos, Pedro agora o desconhecia. Não era o vento que sibilava nas palmas dos coqueiros do quintal [...], nem a brisa crepuscular que levantava o pó do chão [...] espalhava na casa o cheiro ativo das latadas de jasmineiro; porém uma força brutal e cega que enchia as velas, adernava o barco, alteava as ondas bravias, e era assobio e ameaça, vaia e lamento. [...]
MONTELLO, J. Cais da Sagração. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.Considerando as combinações lexicais responsáveis pelos efeitos de sentido, a explicação coerente sobre as palavras ou as expressões selecionadas é a seguinte: