Leia os textospara responder à questão.
TEXTO
Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até
então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender,
ó mãe, quem dera
Ser o verão o apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir
a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher!
TEXTO
Blaise Pascal (1623-1662), filósofo renascentista, defende que o ser humano é composto por duas
dimensões uma masculina, dominada pelo espírito de geometria no qual impera a racionalidade, a frieza
do cálculo, e tudo que é imperativo; e o traço mais importante do feminino, o espírito de finesse ao qual é
atribuído o cuidado, o sentimento solidário, etc.
Considerando a visão do poeta e do filósofo, pode-se afirmar que a convergência entre os dois textos é que
Aquestão esta baseada em diferentes fragmentos da peça teatral Auto da Compadecida, de Ariano Suassuna.
TEXTO
[...]
PALHAÇO
Oi, eu vou ali e volto já.
ATORES
(saindo)
Oi, cabeça de bode não tem que chupar.
[...]
JOÃO GRILO
Sacristão, a vaca da mulher do padeiro tem que sair!
SACRISTÃO
Um momento. Um momento. Em primeiro lugar, o cuidado da casa de Deus e de seus arredores. Que é
isso? Que é isso?
(Ele domina toda a cena, inclusive o Padre que tem uma confiança enorme na empáfia, segurança e hipocrisia
do secretário.)
MULHER E PADEIRO
(ao mesmo tempo, em resposta à pergunta do Sacristão)
É o padre...
SACRISTÃO
(afastando os dois com a mão e olhando para a direita)
Que é aquilo? Que é aquilo?
(Sua afetação de espanto é tão grande, que todos se voltam pra direção em que ele olha.)
Fonte: SUASSUNA, A. Auto da Compadecida. 36. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.Em Auto da Compadecida, Ariano Suassuna mescla o teatro medieval com elementos da tradição popular nordestina e dos espetáculos circenses.
Considerando a função, nessa comédia teatral, dos trechos destacados em parênteses/itálico, cabe afirmar que são
Texto de referência para responder a questão.
[...] E os dois imigrantes, no silêncio dos caminhos, unidos enfim numa mesma comunhão de esperança e admiração, puseram-se a louvar a Terra de Canaã.
Eles disseram que ela era formosa com os seus trajes magníficos, vestida de sol, coberta com o manto do voluptuoso e infinito azul; que era amimada pelas coisas; sobre o seu colo águas dos rios fazem voltas e outras enlaçam-lhe a cintura desejada; [...]
Eles disseram que ela era opulenta, porque no seu bojo fantástico guarda a riqueza inumerável, o ouro puro e a pedra iluminada; porque os seus rebanhos fartam as suas nações e o fruto das suas árvores consola o amargor da existência; porque um só grão das suas areias fecundas fertilizaria o mundo inteiro e apagaria para sempre a miséria e a fome entre os homens. Oh! poderosa!...
Eles disseram que ela, amorosa, enfraquece o sol com as suas sombras; para o orvalho da noite fria tem o calor da pele aquecida, e os homens encontram nela, tão meiga e consoladora, o esquecimento instantâneo da agonia eterna...
Eles disseram que ela era feliz entre as outras, porque era a mãe abastada, a casa de ouro, a providência dos filhos despreocupados, que a não enjeitam por outra, não deixam as suas vestes protetoras e a recompensam com o gesto perpetuamente infantil e carinhoso, e cantam-lhe hinos saídos de um peito alegre...
Eles disseram que ela era generosa, porque distribui os seus dons preciosos aos que deles têm desejo; a sua porta não se fecha, as suas riquezas não têm dono; não é perturbada pela ambição e pelo orgulho; os seus olhos suaves e divinos não distinguem as separações miseráveis; o seu seio maternal se abre a todos como um farto e tépido agasalho... Oh! esperança nossa!
Eles disseram esses e outros louvores e caminharam dentro da luz...
ARANHA, G. (1868-1931). Canaã. 3 ed. São Paulo: Martins Claret, 2013.No trecho “Eles disseram que ela, amorosa, enfraquece o sol e as suas sombras”, o termo "amorosa" possibilita duas funções sintáticas distintas.
Considerando a anáfora predominante no fragmento, a função sintática prevalente é
Texto VIII
Dona Petronilha – vamos chamá-la assim, pois como não conheço mesmo ninguém com esse nome, servirá ele para batizar essa dama. Dama que existiu com sua voz macia e olhos de aço, [...]. Falar com Dona Petronilha era falar em alma piedosa, sem orgulho, pronta para descer de seu pedestal para se dedicar às obras de caridade que o jornal local apregoava e que o padre mencionava com fartura de detalhes nos sermões de domingo. Tinha cadeira cativa na igreja, controle total das quermesses no Largo do Jardim, nome gravado no mármore da biblioteca e opinião acatada pelo juiz quando a pequena sala do fórum se agitava nos julgamentos locais. Afinal, quem ajudou a reconstruir a cadeia?
[...]
Lembro-me agora da figura bem desenhada de dona Petronilha, a de voz macia e olhos de aço. E vejo nessa figura de minha infância o símbolo da burguesia diante da qual se curvavam os poderes públicos e a igreja.”
[...]
TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.As expressões “voz macia” (linha 3) e “olhos de aço” (linha 4) indicam, respectivamente, sentidos de
Texto VIII
Dona Petronilha – vamos chamá-la assim, pois como não conheço mesmo ninguém com esse nome, servirá ele para batizar essa dama. Dama que existiu com sua voz macia e olhos de aço, [...]. Falar com Dona Petronilha era falar em alma piedosa, sem orgulho, pronta para descer de seu pedestal para se dedicar às obras de caridade que o jornal local apregoava e que o padre mencionava com fartura de detalhes nos sermões de domingo. Tinha cadeira cativa na igreja, controle total das quermesses no Largo do Jardim, nome gravado no mármore da biblioteca e opinião acatada pelo juiz quando a pequena sala do fórum se agitava nos julgamentos locais. Afinal, quem ajudou a reconstruir a cadeia?
[...]
Lembro-me agora da figura bem desenhada de dona Petronilha, a de voz macia e olhos de aço. E vejo nessa figura de minha infância o símbolo da burguesia diante da qual se curvavam os poderes públicos e a igreja.”
[...]
TELLES, Lygia Fagundes. A disciplina do amor. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.Ao ressaltar as virtudes de Dona Petronilha, o narrador sugere ao leitor que a narrativa versará sobre
Texto III
[...]
A revolução chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche. É uma voz poderosa dentro dele, poderosa como a voz do mar, como a voz do vento, tão poderosa como uma voz sem comparação. Como a voz de um negro que canta num saveiro o samba que Boa-Vida fez: Companheiros, chegou a hora...
A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos atabaques que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. [...] Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do reformatório e do orfanato. [...] Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, [...]. Voz que traz o bem maior do mundo, mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera é deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da Bahia. Canção da beleza da Bahia. Dentro de Pedro Bala uma voz o chama: voz que traz para a canção da Bahia, a canção da liberdade. Voz poderosa que o chama. Voz de toda a cidade pobre da Bahia, voz da liberdade. A revolução chama Pedro Bala.
AMADO, Jorge. Capitães da Areia. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.Ao incorporar a suposta voz interior de Pedro Bala, o narrador, do ponto de vista da linguagem, constrói um discurso em que predominam
Texto VI
O meu guri
Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar
Já foi nascendo com cara de fome
E eu não tinha nem nome pra lhe dar
Como fui levando não sei explicar
Fui assim levando, ele a me levar
E na sua meninice ele um dia me disse
Que chegava lá, olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço para enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega no morro com o carregamento
Pulseira, cimento, relógio, pneu, gravador
Rezo até ele chegar cá no alto
Essa onda de assaltos tá um horror
Eu consolo ele, ele me consola
Boto ele no colo pra ele me ninar
De repente acordo, olho pro lado
E o danado já foi trabalhar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri e ele chega
Chega estampado, manchete, retrato
Com venda nos olhos, legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente, seu moço
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato, acho que tá rindo
Acho que tá lindo, de papo pro ar
Desde o começo, eu não disse, seu moço?
Ele disse que chegava lá
Olha aí, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri
www.recantodasletras.com.br.chicobuarque.A voz poética trata o interlocutor por “seu moço”, o que denota uma assimetria das posições sociais assumidas nesta canção. O pronome possessivo, no contexto, assume um valor semântico de
Mas Clément Tamba sofria da cobiça do ouro, sabendo que algum dia se jogaria na aventura da riqueza [...]
Agora, Clément Tamba vegetava ali, na solidão das lembranças. [...] Só restavam as lembranças amargas e o fantasma de Cleto Bonfim, que vinha levantar na memória esburacada sua outra vida, a mais forte de todas, a que vivera nos garimpos do rio Calçoene.
“Cheguei. Estou aqui, olhe-me, Clément.”
— Bonfim, fiquei com receio de você naquele dia. Você não me inspirou confiança. [...]
“Clément, você me ensinou créole, me convidou a visitar Caiena. [...] Você não entendia nada de ouro. Eu lhe expliquei, e você, muito esperto, aprendeu tudo. Foi lá que você enricou.”
— Senti muito a morte de Firmino – disse Clément.
“Eu também. Mas eu sempre respeitei a vontade do ouro. Nunca pensei que ela pudesse ser contrariada. O ouro para mim sempre foi um rei encantado, com todos os poderes e vinganças. Ele é mau. Ele se vingou do Firmino. Ouro tem poder de Deus. Ele faz a alegria, mas também faz a desgraça. Só ele sabe por que se revelou ao Firmino e depois o matou.
[...]
— O garimpo morreu de banzo — declarou Crescêncio.
— Acabaram todos os ouros. Agora, ficar aqui é a fome, a febre, a loucura do calor dos meses de verão e o nada nenhum — acrescentou uma sombra.
[...]
Fonte: SARNEY, José. Saraminda. São Paulo: Siciliano, 2000.A valorização da mensagem em si mesma, elaborada pela expressividade das palavras, constitui a função poética presente no fragmento:
O sociólogo Sérgio Buarque de Holanda, na década de 1930, ao interpretar a sociedade brasileira, identificou como uma das suas características a dificuldade de reconhecer os limites entre as esferas públicas e privadas na vida social.
MACHADO, I. J. de R; AMORIM, H; BARROS, C. R. Sociologia Hoje: ensino médio. Volume único. 2. Ed. São Paulo: Ática, 2016. Adaptado.A situação que confirma a continuidade, no século XXI, da característica diagnosticada pelo sociólogo é a seguinte:
Na obra Quarto de despejo: diário de uma favelada, Carolina Maria de Jesus retrata, em uma dimensão sociológica e literária, suas impressões sobre o cotidiano dos moradores de uma favela. Para responder à questão, leia a seguir dois excertos, transcritos integralmente, da referida obra.
Texto I
20 DE MAIO
(...)
Quando cheguei do palacio que é a cidade os meus filhos vieram dizer-me que havia encontrado macarrão no lixo. E a comida era pouca, eu fiz um pouco do macarrão com feijão. E o meu filho João José disse-me:
– Pois é. A senhora disse-me que não ia mais comer as coisas do lixo.
Foi a primeira vez que vi a minha palavra falhar.
(...)
Texto II
30 DE MAIO
(...)
Chegaram novas pessoas para a favela. Estão esfarrapadas, andar curvado e os olhos fitos no solo como se pensasse na sua desdita por residir num lugar sem atração. Um lugar que não se pode plantar uma flor para aspirar o seu perfume, para ouvir o zumbido das abelhas ou o colibri acariciando-a com seu frágil biquinho. O unico perfume que exala na favela é a lama podre, os excrementos e a pinga.
(...)
Fonte: JESUS, Carolina Maria de. Quarto de despejo: Diário de uma favelada. 9. ed. São Paulo: Ática, 2007.A noção de contexto e de repertório social sugerida pela narradora-personagem revela o(a)